Marcelo Miranda
"Se a lenda é mais interessante que a história, publica-se a lenda". Esta máxima foi dita num clássico de John Ford lançado em 1962, "O homem que matou o facínora". Frase emblemática, que funciona como mote deste novo filme de Tim Burton, Peixe Grande. O que vemos na tela, a trama que acompanhamos a partir das histórias de Edward Bloom, é a lenda na qual se transformou este personagem. "Peixe Grande" é uma história sobre a morte e uma celebração à vida.
A trama se assemelha bastante ao do recente e elogiado As Invasões Bárbaras, de Denys Arcand, com ambos lidando com um filho às voltas com os últimos dias de um pai com quem jamais combinou. Mas, se o canadense Arcand celebrava a própria morte e um mundo que não volta mais, caindo numa nostalgia vazia e inoportuna, o filme de Burton é uma confissão de amor à vivência e de tudo aquilo que ela tem a oferecer, sem que o protagonista jamais se queixe daquilo que já passou (como acontecia com incômoda freqüência na fita de Arcand).
E Edward Bloom (vivido por Albert Finney na velhice e por Ewan McGregor na juventude), este protagonista, utiliza as histórias pitorescas para deixar claro que a vida é muito mais do que aparenta, a princípio, aos nossos olhos. Que viver não é simplesmente deixar o tempo passar, mas aproveitá-lo da forma mais intensa e encantadora possível, saber usar esta oportunidade que é dada a cada um de nós para, quando chegar o fim, estarmos seguros e irmos realmente em paz.
No caso de Bloom, suas histórias maravilhosas são as armas para este proveito. A cada fato novo de seu cotidiano que ele conta a alguém, aumenta e exagera em alguns aspectos, dando um tom lúdico e mágico a qualquer momento, desde seu nascimento, ainda no parto, até o nascimento de seu filho, momento em que ele 'pesca' o peixe do título. E este 'peixe grande' significa muito mais do que um animal. É a representação do próprio Bloom, a metáfora para o fato dele jamais conseguir ficar parado e preso. Funciona ainda como elo para uma possível reconciliação entre ele e o filho. Graças ao 'peixe', o rapaz pode aprender a enxergar o que significam, afinal, as mirabolantes aventuras do pai. É aquilo que vai eternizar Bloom, torná-lo a lenda, e eternizar também o amor do filho.
Alguns chamam o diretor Tim Burton de cineasta bizarro. Outros afirmam que ele é um ‘autor’ inserido na grande indústria do cinema de Hollywood. O que mais importa em Burton é seu talento para criar histórias além do esperado, sua capacidade de surpreender não em reviravoltas mirabolantes de enredo, mas no visual, na temática, no encadeamento dos roteiros que filma. Em seus filmes, Burton retrata personagens à margem da sociedade. Em "Os Fantasmas se Divertem", aborda um ser de outro mundo pronto para atormentar os humanos; em "Batman" e "Batman - O Retorno", mostra a trajetória de um homem amargurado à caça de vingança pelos meios mais obscuros; e nas suas obras mais pessoais, "Edward Mãos de Tesoura" e "Ed Wood", acompanhamos a vida de duas figuras incompreendidas nos meios em que vivem.
Obras pessoais porque Burton é como estes dois: luta pelos ideais, faz o que bem entende, é um apaixonado pelo cinema. Isso fica claro a cada momento de "Peixe Grande". Sob inspiração do livro de Daniel Wallace, bela trilha sonora de Danny Elfman e roteiro de John August, Burton utiliza boa parte dos recursos que o cinema pode lhe proporcionar para apresentar as mais imaginativas situações, envolvendo bruxas, anões, gigantes, lobisomens. Ele faz do filme aquilo que essencialmente é: um conto fictício. Isso torna a fita sincera e mais próxima do real, a partir do momento em que se assume verdadeiramente cinema.
O elenco fascinante (que inclui ainda Jessica Lange, Alison Lohman, Billy Crudup e Helena Boham Carter) se entrega à proposta do cineasta e aumenta ainda mais o impacto e a força do filme. "Peixe Grande" é aquilo que o francês Georges Meliès, precursor do cinema como ficção, e não retrato da pura realidade, sempre pregou: uma fábula fantástica e fantasiosa, oferecendo tudo que a magia do cinema pode dar ao espectador. Tim Burton captou essa idéia, sem jamais deixar de lado seu público e aquilo que sua história tem de verdadeira.
